João Garcia de Campos
Encontro com o Psicólogo - Maio 2006
João Garcia de Campos

Tarefa escolar.
A tarefa escolar, em algumas famílias, tem se tornado um verdadeiro tormento. Mãe e filhos se “escabelando” em meio a livros e cadernos, como se submetessem a um suplício noturno, imposto por uma entidade sádica chamada Escola e que não raro acaba com a criança indo dormir chorando e a mãe finalizando a tarefa. Este clima tem provocado conseqüências ruins para o aluno. Ao se responsabilizar e obrigatoriamente ajudar o filho a fazer o dever de casa, a família não está fazendo um bem, mas criando acomodação e dependência na criança. A lição de casa não é uma espécie de castigo ou punição que a escola impinge ao aluno e que os pais têm que aliviar, ela tem objetivos pedagógicos muito claros e definidos ao ser solicitada. O primeiro e mais importante de todos, é o de permitir à criança que entre em contato com seu próprio saber e exercite sua maneira de aprender. Em cada lição nova dada em sala de aula, há uma boa parte de conhecimento não assimilado pelo aluno e que poderá ser resgatado com a lição de casa, quando mais uma vez ele entrará em contato com o que já aprendeu e confrontará com o novo, com o que está aprendendo, criando assim, novos significados para seu saber. É na tarefa escolar que o aluno levanta suas hipóteses e dúvidas. É momento importante de aprendizagem, porque novas possibilidades começam a se abrir, novos modos de raciocinar e de resolver situações. E então acontece a autonomia do pensamento: a criança descobre que tem suas próprias idéias. Porém, este é um processo individual e que exige da criança entre o contato com seu mundo interno, com suas maneiras de raciocinar e de procurar soluções. A ajuda dos pais deve ser muito discreta visando proporcionar à criança organização (temporal e espacial) e tranqüilidade, que são recursos que vão sendo construídos ao longo da vida escolar. Quando a família participa muito ativamente do processo, tentando ajudar na execução das tarefas, acaba roubando da criança a oportunidade de auto-afirmação e de autoconfiança. Pelo contrário reforça-lhe seus sentimentos de incapacidade e de impotência, de insegurança, de medo de errar, de não acreditar em sua própria capacidade de resolver problemas e de encontrar soluções, de não acreditar no seu próprio saber. Então, cria-se uma espécie de ciclo vicioso: diante da lição, sua primeira atitude é dizer: não sei fazer. E imediatamente, a família corre para ajudá-la, e quase sempre, acaba fazendo a lição por ela. Se a criança diz não saber, é melhor deixa-la fazer com erros, pois o outro objetivo da lição de casa é avaliar o quanto os alunos aprenderam e entenderam do conteúdo que foi dado O erro do aluno é a maneira que a escola tem para saber o que não está indo bem. Se a criança traz a lição toda feita com a ajuda dos pais, a escola perde essa oportunidade de avaliar e de revisar o que não ficou claro, e que passa como aprendido. Além disso, a criança terá perdido uma ótima oportunidade de aprender a lidar com o erro, com o fracasso, com o não-saber, com a possibilidade de romper a barreira da timidez e pedir novas explicações e, também, de aprender a negociar através da argumentação lógica e do enfrentamento. Portanto, o papel da família na hora da lição de casa é o de orientar a adequação dos horários, criar um ambiente tranqüilo, de fornecer material necessário, de respeitar o ritmo da criança e, sempre que possível, fazer daquele momento, um momento de diálogo, de troca; uma oportunidade a mais de conversa em família; um espaço onde novas idéias possam surgir. Enfim, deve ser um momento de produção e não castigo e de manipulação nas mãos dos filhos.
A criança se sente extremamente valorizada e autoconfiante quando percebe que pode realizar suas tarefas sozinhas e, com isso, sua autonomia e auto-estima aumentam muito. Com o tempo, ela vai incorporando o hábito das tarefas escolares na sua rotina, de modo que se torna uma atividade tão comum quanto outra qualquer. Mas o mais importante é quando ela diz, com orgulho e satisfação: "Fui eu que fiz!”

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